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Cefaleia na infância: quando a dor de cabeça merece atenção?

  • Foto do escritor: Daniel Alves de Oliveira
    Daniel Alves de Oliveira
  • 11 de jul.
  • 4 min de leitura
Arte informativa em tons de azul e branco sobre cefaleia na infância. À esquerda, o título "Cefaleia na infância: quando a dor de cabeça merece atenção?" acompanhado da logomarca do Dr. Daniel Alves, neurologista pediátrico. Abaixo, ícones destacam os temas: principais causas, sinais de alerta, quando procurar avaliação médica e tratamento. À direita, uma criança segura a cabeça demonstrando dor enquanto é acolhida por um médico. A imagem divulga conteúdo educativo sobre dor de cabeça em crianças e avaliação em Neurologia Pediátrica em Natal-RN.
A cefaleia é uma queixa comum na infância e, na maioria dos casos, está relacionada a condições benignas. Conhecer os sinais de alerta é essencial para identificar quando a criança precisa de avaliação especializada.

A dor de cabeça (cefaleia) é uma das queixas neurológicas mais frequentes na infância e adolescência. Embora cause preocupação em muitas famílias, a maioria dos casos não está relacionada a doenças graves. Ainda assim, reconhecer os sinais de alerta é fundamental para identificar as crianças que necessitam de investigação especializada.

Como neurologista pediátrico, recebo frequentemente pais preocupados porque o filho começou a reclamar de dor de cabeça. A primeira pergunta costuma ser: "Será que isso pode ser um tumor cerebral?"


A resposta é tranquilizadora: na grande maioria dos casos, não. As cefaleias primárias, especialmente a enxaqueca e a cefaleia do tipo tensional, representam a maior parte dos diagnósticos em crianças e adolescentes.



A dor de cabeça é comum em crianças?


Sim.

Estudos internacionais mostram que aproximadamente 60% das crianças e adolescentes apresentarão pelo menos um episódio significativo de cefaleia durante a infância, enquanto a prevalência de enxaqueca varia entre 8% e 23% na adolescência, aumentando progressivamente com a idade.

A frequência tende a aumentar após os 10 anos e, após a puberdade, torna-se mais comum em meninas devido à influência hormonal.



Quais são as principais causas?


1. Enxaqueca (Migrânea)

É a principal causa de cefaleia recorrente na infância.

Os sintomas podem incluir:

  • dor pulsátil;

  • intensidade moderada ou forte;

  • náuseas ou vômitos;

  • sensibilidade à luz (fotofobia);

  • sensibilidade ao barulho (fonofobia);

  • piora com atividade física.

Nas crianças, diferentemente dos adultos, a dor frequentemente é bilateral e pode durar apenas 2 horas, mantendo os critérios diagnósticos da Classificação Internacional das Cefaleias (ICHD-3).


2. Cefaleia na infância do tipo tensão

Costuma apresentar:

  • dor em pressão ou aperto;

  • intensidade leve a moderada;

  • localização bilateral;

  • ausência de náuseas importantes;

  • pouca interferência nas atividades.

Frequentemente está associada a:

  • estresse;

  • ansiedade;

  • privação de sono;

  • excesso de telas;

  • tensão muscular.


3. Cefaleias secundárias

São menos frequentes, porém merecem atenção.

Podem ocorrer por:

  • infecções virais;

  • sinusites (embora frequentemente superestimadas como causa);

  • meningite;

  • traumatismo craniano;

  • alterações da pressão intracraniana;

  • tumores cerebrais;

  • hemorragias;

  • hipertensão arterial;

  • problemas oftalmológicos específicos.

Felizmente, essas condições representam apenas uma pequena parcela dos atendimentos por cefaleia pediátrica.


Quando a dor de cabeça é um sinal de alerta?


Existem alguns sintomas que indicam necessidade de avaliação médica imediata.

Procure atendimento rapidamente se a criança apresentar:

  • dor de cabeça súbita e extremamente intensa ("a pior da vida");

  • cefaleia progressivamente pior ao longo das semanas;

  • dor acompanhada de febre e rigidez na nuca;

  • alteração do nível de consciência;

  • convulsões;

  • fraqueza em um lado do corpo;

  • dificuldade para falar;

  • alterações da visão;

  • dor que desperta repetidamente durante a noite associada a vômitos persistentes;

  • vômitos frequentes sem outra explicação;

  • alteração no exame neurológico;

  • cefaleia após trauma importante.


Esses chamados "red flags" orientam a necessidade de exames complementares e, em alguns casos, neuroimagem urgente.



Toda criança com dor de cabeça precisa fazer ressonância?


Não.

Essa é uma das maiores dúvidas dos pais.

Em crianças com história típica de enxaqueca ou cefaleia tensional, exame neurológico completamente normal e ausência de sinais de alerta, a realização rotineira de tomografia ou ressonância não é recomendada, pois o rendimento diagnóstico é muito baixo e pode levar a achados incidentais sem relevância clínica.

O diagnóstico da maioria das cefaleias infantis é essencialmente clínico, baseado em uma história detalhada e em um exame neurológico cuidadoso.



Como é feito o tratamento?


O tratamento depende da causa da cefaleia.

Na maioria das crianças, envolve medidas simples:

  • sono adequado;

  • boa hidratação;

  • alimentação regular;

  • redução do excesso de telas;

  • prática de atividade física;

  • identificação dos fatores desencadeantes;

  • tratamento medicamentoso durante as crises quando indicado.

Em crianças com enxaquecas frequentes ou incapacitantes, pode ser necessário tratamento preventivo individualizado, sempre orientado por um neurologista pediátrico. Além dos medicamentos, intervenções comportamentais e manejo dos hábitos de vida desempenham papel importante na redução das crises.



Quando procurar um neurologista pediátrico?


É recomendável procurar avaliação especializada quando:

  • as dores de cabeça são frequentes;

  • há prejuízo escolar;

  • a criança deixa de brincar por causa da dor;

  • existe necessidade frequente de analgésicos;

  • há histórico familiar importante de enxaqueca;

  • surgem sinais de alerta;

  • persistem dúvidas sobre o diagnóstico.


Uma avaliação precoce permite tranquilizar a família quando se trata de uma cefaleia benigna e identificar rapidamente os casos que necessitam de investigação.



Conclusão


Embora a cefaleia seja um sintoma comum na infância, ela nunca deve ser ignorada. Felizmente, a maioria dos casos está relacionada a condições benignas, como enxaqueca e cefaleia tensional. Uma avaliação clínica cuidadosa é capaz de diferenciar os quadros que exigem investigação daqueles que podem ser tratados de forma segura e eficaz.

Se seu filho apresenta dores de cabeça frequentes, uma consulta com um neurologista pediátrico pode esclarecer a causa e definir o tratamento mais adequado.



Referências

HEADACHE CLASSIFICATION COMMITTEE OF THE INTERNATIONAL HEADACHE SOCIETY. The International Classification of Headache Disorders (ICHD-3). 3. ed. Cephalalgia, v. 38, n. 1, p. 1-211, 2018.

OSKOUI, M. et al. Practice guideline update summary: Pharmacologic treatment for pediatric migraine prevention. Neurology, v. 93, n. 11, p. 500-509, 2019.

AMERICAN ACADEMY OF NEUROLOGY. Practice Guideline Update: Pharmacologic Treatment for Pediatric Migraine Prevention. Minneapolis: AAN, 2019.

ROYAL CHILDREN'S HOSPITAL MELBOURNE. Clinical Practice Guideline: Headache. Melbourne, 2025.

PAPETTI, L. et al. Beyond ICHD-3 criteria: Diagnostic challenges in headache in pediatric age. Cephalalgia, 2026.

NATIONAL INSTITUTE FOR HEALTH AND CARE EXCELLENCE (NICE). Suspected neurological conditions: recognition and referral – Quality statement 1: Headaches and 'red flag' symptoms in children. Londres, 2021.

 
 
 

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