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Atraso de fala na infância: quando é esperado e quando é hora de procurar um neuropediatra?

  • Foto do escritor: Daniel Alves de Oliveira
    Daniel Alves de Oliveira
  • 22 de jul.
  • 4 min de leitura
Ilustração sobre atraso de fala na infância mostrando uma criança em sessão de estimulação da linguagem com uma profissional de saúde utilizando um cartão ilustrado de maçã. A imagem destaca os principais temas do artigo: marcos do desenvolvimento da fala, causas do atraso, sinais de alerta, investigação e tratamento precoce.

Uma das maiores preocupações dos pais durante os primeiros anos de vida é perceber que o filho "ainda não fala". Embora exista uma variação natural no desenvolvimento infantil, o atraso de fala nunca deve ser encarado apenas como "cada criança tem seu tempo" sem uma avaliação adequada.

A linguagem é um dos principais indicadores do desenvolvimento neurológico da criança. Quando identificadas precocemente, muitas causas de atraso podem ser tratadas com excelentes resultados graças à elevada plasticidade cerebral dos primeiros anos de vida.


O que é atraso de fala?

O atraso de fala ocorre quando a criança apresenta um desenvolvimento da comunicação verbal abaixo do esperado para sua idade.

É importante diferenciar dois conceitos:

  • Fala: capacidade de produzir sons e palavras.

  • Linguagem: capacidade de compreender, interpretar e se comunicar (por palavras, gestos ou outras formas).

Uma criança pode apresentar dificuldade apenas na fala ou ter um atraso mais amplo da linguagem.


Quais são os marcos esperados da linguagem?

Embora cada criança tenha pequenas variações, alguns marcos costumam ser observados:

Até 6 meses

  • Sorri em resposta à voz

  • Balbucia

  • Emite diferentes sons

Entre 9 e 12 meses

  • Responde ao nome

  • Faz gestos como apontar ou dar tchau

  • Diz "mamã" e "papá", inicialmente sem significado específico

Entre 12 e 18 meses

  • Fala entre 10 e 20 palavras

  • Compreende ordens simples

  • Identifica pessoas e objetos familiares

Aos 2 anos

  • Usa frases de duas palavras

  • Possui cerca de 50 palavras ou mais

  • É compreendida pelos pais na maior parte do tempo

Aos 3 anos

  • Forma frases completas

  • Conversa de maneira simples

  • Pessoas fora da família conseguem entender grande parte do que fala

Se esses marcos não estão sendo atingidos, é indicada uma avaliação especializada.


Quais são as principais causas do atraso de fala?

O atraso de fala não possui uma única causa. Entre as mais frequentes estão:


Alterações auditivas

Mesmo perdas auditivas leves podem dificultar a aquisição da linguagem.

Por isso, testes auditivos frequentemente fazem parte da investigação.


Transtorno do Espectro Autista (TEA)

Nem toda criança com atraso de fala tem autismo.

Entretanto, quando o atraso vem acompanhado de dificuldades de interação social, pouco contato visual, ausência de gestos comunicativos ou comportamentos repetitivos, o TEA deve ser investigado.


Transtorno do Desenvolvimento da Linguagem (TDL)

Anteriormente chamado de Distúrbio Específico da Linguagem, ocorre quando existe dificuldade importante para desenvolver linguagem sem outra doença neurológica que explique o quadro.


Deficiência intelectual

O atraso da linguagem pode fazer parte de um atraso global do desenvolvimento.


Doenças neurológicas e genéticas

Algumas síndromes genéticas, epilepsias do desenvolvimento, doenças metabólicas e alterações neurológicas também podem comprometer a linguagem.


Privação de estímulos

Crianças precisam de interação humana.

Conversar, brincar, cantar e ler histórias são estímulos fundamentais para o desenvolvimento cerebral.


O excesso de telas pode atrasar a fala?

As evidências científicas mostram associação entre tempo excessivo de telas, especialmente antes dos dois anos de idade, e maior risco de atraso na linguagem.

O problema não é apenas a tela em si, mas o fato de substituir interações fundamentais, como conversas, brincadeiras e leitura compartilhada.

Diversos estudos demonstram que exposições prolongadas, principalmente superiores a duas horas diárias e sem interação dos pais, estão associadas a pior desenvolvimento da linguagem.


Quando procurar um neuropediatra?

Procure avaliação se a criança:

  • Não balbucia até 9 meses.

  • Não responde ao próprio nome.

  • Não aponta para mostrar objetos.

  • Não fala nenhuma palavra aos 18 meses.

  • Não forma frases aos 2 anos.

  • Perde palavras que já dizia.

  • Parece não compreender comandos simples.

  • Apresenta atraso em outras áreas do desenvolvimento.

A avaliação precoce permite identificar a causa e iniciar o tratamento o quanto antes.


Existe tratamento?

Sim.

O tratamento depende da causa, mas frequentemente envolve:

  • Fonoaudiologia.

  • Orientação aos pais.

  • Estimulação da linguagem em casa.

  • Controle do tempo de telas.

  • Tratamento das doenças associadas quando presentes.

Quanto mais cedo a intervenção é iniciada, maiores são as chances de um bom desenvolvimento, especialmente nos primeiros anos de vida, período de maior plasticidade cerebral.


Conclusão

O atraso de fala é um dos principais motivos de consulta em Neurologia Pediátrica. Felizmente, muitas causas podem ser identificadas e tratadas quando o diagnóstico é realizado precocemente.

Pais e cuidadores não devem esperar que o problema "se resolva sozinho". Sempre que houver dúvidas sobre o desenvolvimento da linguagem, uma avaliação especializada é o caminho mais seguro para garantir o melhor potencial de desenvolvimento da criança.


Referências

AMERICAN ACADEMY OF PEDIATRICS. Media and Young Minds. Pediatrics, v. 138, n. 5, e20162591, 2016.

BRASIL. Ministério da Saúde. Diretrizes de estimulação precoce: crianças de zero a 3 anos com atraso no desenvolvimento neuropsicomotor. Brasília: Ministério da Saúde, 2016. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/s/saude-da-pessoa-com-deficiencia/publicacoes/diretrizes-de-estimulacao-precoce-criancas-de-zero-a-3-anos-com-atraso-no-desenvolvimento-neuropsicomotorpdf. Acesso em: 22 jul. 2026.

BRASIL. Ministério da Saúde. Pesquisa aponta que 12% das crianças brasileiras apresentam suspeita de atraso no desenvolvimento. Brasília, 2023. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/noticias/2023/outubro/pesquisa-aponta-que-12-das-criancas-brasileiras-apresentam-suspeita-de-atraso-no-desenvolvimento/. Acesso em: 22 jul. 2026.

HUTTON, J. S. et al. Associations Between Screen-Based Media Use and Brain White Matter Integrity in Preschool-Aged Children. JAMA Pediatrics, v. 174, n. 5, p. 509–520, 2020.

RIBEIRO, L. N. et al. Relação entre o atraso de desenvolvimento da fala e uso de tela precoce: uma revisão sistemática. Brazilian Journal of Health Review, v. 8, n. 3, 2025.

VARANDA, C. A. et al. Identificação precoce e intervenção em déficits de linguagem e dificuldades comportamentais na educação infantil. Psicologia: Teoria e Pesquisa, v. 35, 2019.

 
 
 

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